tudo o que eu sempre conheci sempre foram putas, ex-prostitutas,
loucas. vejo homens com mulheres calmas e
gentis - vejo-os nos supermercados,
caminhando juntos na rua,
eu os vejo em seus apartamentos: pessoas em
paz, vivendo juntas. sei que essa paz
é apenas parcial, mas
existe paz, muitas horas e dias de paz.


tudo o que eu sempre conheci foram boleteiras, alcoólatras,
putas, ex-prostitutas, loucas.


quando uma vai
outra vem
pior do que sua antecessora.


vejo tantos homens com garotas calmas e limpas em
vestidos de algodão
garotas com rostos que não são de predadoras ou de
feras.


“nunca traga uma puta junto com você,” eu digo para meus
poucos amigos, “eu me apaixonarei por ela.”


“você não consegue suportar uma boa mulher, Bukowski.”


preciso de uma boa mulher. preciso de uma boa mulher
mais do que da máquina de escrever, mais do que do
meu automóvel, mais do que de
Mozart; preciso tanto de uma boa mulher que posso
senti-la no ar, posso senti-la
na ponta dos dedos, posso ver calçadas construídas
para seus pés caminharem,
posso ver travesseiros para sua cabeça,
posso sentir a expectativa da minha risada,
posso vê-la acariciar um gato,
posso vê-la dormir,
posso ver seus chinelos no chão.


eu sei que ela existe
mas em que parte deste planeta ela está
enquanto as putas continuam me encontrando?

Charles Bukowski

11:05

11:04

11:04

11:04

Minha vó costumava dizer que essa coisa de fazer aniversário é uma dádiva. Mais um ano que você viveu, aprendeu e cresceu. Mais velinhas pra serem apagadas. Mais pedidos pra serem concretizados. Mais bolo, docinhos e balões de festa. Não sei muito bem como reagir aos “parabéns” que, por muitas vezes, saltam de bocas que na verdade não tem a mínima intenção de lhe desejar coisas realmente boas. Muitas felicidades, muitos anos de vida - cantam os versinhos singelos, enquanto eu peço firme e de olhos fechados pra encontrar o mais breve possível essa felicidade. Eles me obrigam a assoprar as velinhas miúdas e fazer um pedido. Não sei o que pedir. Aliás, eu nunca soube. Sinto como se pedir algo é o mesmo que torcer para que ele não se realize. O bom das coisas é quando elas acontecem porque tem de acontecer, sem hora marcada ou tempo planejado. No fundo, no fundo, eu nunca pedi algo de muito valor. Não quero roupas da marca mais cara, nem o último celular em lançamento ou a viajem que qualquer pessoa no mundo almeja. Essas coisas não sobrepõem o real valor que é ter saúde, amor e paz. E, acima de tudo, ter um coração calmo e sereno, sem tantas dores e mágoas da vida. A verdade é que os meus pedidos ao cruzar os dedos e apagar o fogo dançante das velas sempre foram os mesmos: amor-próprio. Estar bem consigo é estar bem com o vizinho, com o jornaleiro e com o resto do mundo. E há coisa melhor do que estar bem com o mundo? Não, não há. Porque sorrir pra vida é o melhor remédio pra qualquer mal que possa atravessar o nosso percurso até a felicidade. Eu espero, de verdade, que ainda venham muitos aniversário pela frente para serem comemorados. Ainda quero mais pedaços de bolos com os mais variados tipo recheios pra saborear. Ainda quero velinhas coloridas, balões barulhentos e anos para serem vividos e gozados. Olho pra trás e percebo o quanto amadureci ao longo do tempo, ao longo de todos esses aniversários e dos “parabéns pelo seu dia” balbuciados dos mais diversos tons de voz. A minha roda de amigos foi mudando aos poucos, assim como os meus gostos, os meus medos e os meus sonhos. Por muito tempo eu vivi amargurada e me questionando porque raios as pessoas me desejavam parabéns, se nem ao menos eu fiz algo de algum valor nessa vida. E, hoje, tenho consciência de que não posso mudar o passado, mas posso fazer com que o resto dos meus anos a serem comemorados valham de algo. Amadureci depois de várias quedas horríveis, mas nem por isso tenho medo das próximas que virão. Quero ser uma eterna aluna da vida, independente dos anos que carrego na bagagem. Não tenho mais aquele desejo incontrolável de viver um conto de fadas perfeito, pelo contrário: hoje eu faço da minha realidade algo bem melhor do que um mero conto de fadas.

Capitule, Aniversário.

11:03

11:00

Persona, 1966.

11:00

10:59

Eu sempre pareci boa demais para lidar com os problemas dos outros. A melhor pessoa para poder dar os melhores conselhos. E por causa disso nunca mostrei o meu ponto fraco. E eu garanto, não foi por falta de oportunidade. Eu sempre fui muito verdadeira com o que eu sentia, e talvez por causa disso, as pessoas só olhavam para o que interessasse e isso não incluía os meus problemas, muito menos os meus defeitos. Ninguém reparava porque nunca me olharam com os olhos da verdade. Nunca repararam que eu também sofria e que por isso muitas vezes me calava. Me calava porque descobri que o silêncio era o meu melhor ouvinte e que não existia ninguém no mundo para me fazer mudar de ideia. Eu conversava com meninas 10 anos mais novas que eu. Olho pro meu passado quando me via chorando por não ter ninguém para me entender ou até mesmo para me ouvir e percebo que nossas vidas não são tão diferentes, e que nem mesmo depois de tantos anos as coisas haviam mudado no mundo, principalmente no meu mundo. Digo palavras de conforto esperando que sirvam de ajuda quando na verdade no fundo no fundo, não funcionaria nada vindo de uma pessoa que diz que é para procurar ser feliz quando nem ela mesma sabe o caminho. Eu me sentia no dever de ajudar nos piores momentos da vida de cada um, porque eu sei o quanto é doloroso não ter um lugar para ancorar nos tempos de tempestade. O problema é que eles me viam como a única pessoa que poderia salva-los. Mas na verdade, eles não perceberam que eu já estava afundando há muito tempo.

Restos de um naufrágio.

10:59

10:53

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